O longo dia de ontem na USP e a desocupação pela manhã

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Estudantes, funcionários da USP e uma comissão de negociações, indicada pelo reitor, se reuniram mais uma vez, ontem, sem sucesso. A reintegração foi feita hoje.


 

O dia de ontem foi longo para os estudantes que ocupavam o prédio da reitoria. Logo pela manhã, eles receberam um comunicado de que haveria uma nova rodada de negociações, proposta pelo reitor. Às 14h45 começou a reunião que só acabou às 18h e sem nenhum avanço, o que estimulou os alunos a decidirem pela continuação da ocupação, tendo em vista que não foram atendidos em sua exigência primordial, que é a abertura das negociações para que a reitoria encerre o convênio com a Polícia Militar no campus.

Estiveram no encontro, realizado no prédio de Geografia, o superintendente de assuntos institucionais da USP, Wanderley Messias; o coordenador de comunicação social da USP, Alberto Amadio, além dos estudantes Rafael Padial e Rafael Alvim, e, representando os trabalhadores da universidade, Marcelo Pablito. Com o impasse estabelecido, uma assembleia extraordinária foi convocada. Cerca de 400 alunos compareceram e votaram unanimemente pela manutenção da ocupação, apesar do prazo dado pela Justiça, que determinava a desapropriação até às 23h de ontem (7).

O cerne da pauta proposta pelos alunos é o fim do convênio com a PM e que sejam encerrados e arquivados os processos administrativos instaurados contra estudantes que ferem o regimento da USP, datado de 1972. Para Messias, “a revogação do convênio com a PM está fora de questão, o que estamos dispostos a negociar com eles é o aprimoramento de atuação, quiçá podemos chegar um dia a uma espécie de manual de operação de procedimento da Polícia Militar”. Já na questão dos processos, ele afirmou: “Criaremos um grupo de trabalho que vai examinar possíveis injustiças, possíveis problemas, possíveis saídas, para evitar que estudantes e funcionários sejam punidos apenas pelos seus atos, palavras e gestos políticos”. A Universidade ainda garantiu que não haveria punições caso os ocupantes se retirassem do prédio até às 23h, se não houvesse danificações ao espaço.

Os alunos saíram indignados da reunião. “Consideramos que a proposta insuficiente, não há nenhum andamento em qualquer uma das pautas que trouxemos para cá, que eram: fim dos processos e revogação imediata do convênio, não caminharam em nada”, disse o estudante Rafael Alvim.
Ao final da reunião um ato a favor da presença da PM, mobilizada por grupos opositores ao da ocupação, reuniu cerca de 30 pessoas na praça do Relógio, sem muita repercussão e adesão.

O alvo principal é o reitor João Grandino Rodas, que foi motivo de várias manifestações ofensivas durante a plenária dos estudantes, à noite. Em um dos momentos, os estudantes cogitaram a hipótese de pautar, no movimento, o pedido de “Fora Rodas”, exigindo sua saída imediata do comando da maior universidade do país, porém, foi rejeitado pela maioria. No final da assembleia houve um incidente envolvendo alunos e alguns profissionais de imprensa que tentaram registrar imagens dos estudantes. Um fotógrafo ficou ferido.

Ontem à noite, por volta das 23h15, a Polícia Militar já havia sido notificada e o efetivo policial estava mobilizado para aguardar a chegada do oficial de justiça para dar início à reintegração de posse, autorizada pela Justiça. Com um aparato impressionante, aproximadamente 400 homens, Tropa de Choque, 50 carros e cavalaria, no final da madrugada, a invasão do prédio público começou. A operação foi rápida e os estudantes não ofereceram resistência. Quem estava no local relatou alguns casos de agressões e um fato que chamou à atenção. Os policiais, quando entraram, foram diretamente na direção de Rafael Alvim, um dos coordenadores do movimento e que sofre diversos processos administrativos, impetrados pela USP. Um aluno, que não quis se identificar, declarou: “É muito estranho, eles entraram e já o conheciam, foram direto no Rafael e bateram nele até que ficasse caído, então o prenderam, tiraram ele do meio do grupo e o levaram sozinho”. Há relatos de diversos alunos que apanharam e no começo do dia vieram os números: 66 presos, 23 mulheres e 43 homens. Todos levados para 91° DP, no Ceasa.

Às 13h, cerca de 300 estudantes cercavam a 91ª DP pedindo a libertação dos estudantes presos durante a operação da PM.

Foto por http://www.flickr.com/photos/cbnsp/.