Desembargador do Tribunal de Justiça de Sergipe processa jornalista por texto ficcional

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“Processos judiciais sem o menor cabimento, sem sentido e sem nenhum razão de ser”, reage assim o jornalista José Cristian Góes, 41, contra dois processos movidos contra ele pelo desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe, Edson Ulisses de Melo. Ações pedem abertura de inquérito policial e pena de prisão, além do pagamento de indenização por dano moral a ser fixada pelo juiz e o pagamento de R$ 25 mil pelas custas do processo.
O desembargador, que é cunhado do governador de Sergipe, Marcelo Déda (PT), ingressou com um processo criminal e outro cível contra o jornalista por conta de um texto ficcional publicado em seu blog no portal Infonet em maio deste ano.  
No texto, que é intitulado de “Eu, o coronel em mim”, o jornalista escreve em primeira pessoa, num estilo de confissão onde um coronel imaginário dos tempos de escravidão que se vê chocado com o momento democrático. “No artigo não tem indicação de local, de data, cargo, função e muito menos nomes e nem características de ninguém”, informa o jornalista.
Imaginou o desembargador Edson Ulisses e seus advogados que quando Cristian Góes escreveu em primeira pessoa o seu texto estava, na verdade, fazendo críticas diretas ao seu cunhado, o governador Marcelo Déda. Assim, quando o jornalista escreveu “c
hamei um jagunço das leis, não por coincidência marido de minha irmã”, supôs o autor da ação de que estaria fazendo referência ao cargo de desembargador e a ele pessoalmente.
Importante destacar que o governador Marcelo Déda não entrou com ações contra o jornalista. “Não ingressou porque o texto não se refere a ele. O texto se refere a um sujeito ficcional, isto é, sem amparo na realidade objetiva. Assim é impossível que o senhor Edson Ulisses se encontre no texto, ou seja, são ações sem qualquer cabimento”, esclarece o jornalista.
Cristian Góes lembra ainda que o desembargador, através das ações, tenta confundir notícia jornalística com texto ficcional. “Sou objetos completamente diferentes, radicalmente opostos”, explica. Ele lamenta os processos porque eles podem configurar, antes de tudo, uma tentativa de ataque direito à liberdade de expressão, um sagrado direito constitucional. “Acredito que o desembargador Edson Ulisses irá analisar melhor e perceber o equívoco dessas ações”, aposta o jornalista.
 

Caroline Santos

SRTE/SE 898 



Veja a íntegra do texto o jornalista que causou os processos:
 
 
Eu, o coronel em mim
 

Está cada vez mais difícil manter uma aparência de que sou um homem democrático. Não sou assim, e, no fundo, todos vocês sabem disso. Eu mando e desmando. Faço e desfaço. Tudo de acordo com minha vontade. Não admito ser contrariado no meu querer. Sou inteligente, autoritário e vingativo. E daí?
No entanto, por conta de uma democracia de fachada, sou obrigado a manter também uma fachada do que não sou. Não suporto cheiro de povo, reivindicações e nem com versa de direitos. Por isso, agora, vocês estão sabendo o porquê apareço na mídia, às vezes, com cara meio enfezada: é essa tal obrigação de parecer democrático.
Minha fazenda cresceu demais. Deixou os limites da capital e ganhou o estado. Chegou muita gente e o controle fica mais difícil. Por isso, preciso manter minha autoridade. Sou eu quem tem o dinheiro, apesar de alguns pensarem que o dinheiro é público. Sou eu o patrão maior. Sou eu quem nomeia, quem demite. Sou eu quem contrata bajuladores, capangas, serviçais de todos os níveis e bobos da corte para todos os gostos.
Apesar desse poder divino sou obrigado a me submeter à eleições, um absurdo. Mas é outra fachada. Com tanto poder, com tanto dinheiro, com a mídia em minhas mãos e com meia dúzia de palavras modernas e bem arranjadas sobre democracia, não tem para ninguém. É só esperar o dia e esse povo todo contente e feliz vota em mim. Vota em que eu mando.
Ô povo ignorante! Dia desses fui contrariado porque alguns fizeram greve e invadiram uma parte da cozinha de uma das Casas Grande. Dizem que greve faz parte da democracia e eu teria que aceitar. Aceitar coisa nenhuma. Chamei um jagunço das leis, não por coincidência marido de minha irmã, e dei um pé na bunda desse povo.
Na polícia, mandei os cabras tirar de circulação pobres, pretos e gente que fala demais em direitos. Só quem tem direito sou eu. Então, é para apertar mais. É na chibata. Pode matar que eu garanto. O povo gosta. Na educação, quanto pior melhor. Para quê povo sabido? Na saúde…se morrer “é porque Deus quis”.
Às vezes sinto que alguns poucos escravos livres até pensam em me contrariar. Uma afronta. Ameaçam, fazem meninice, mas o medo é maior. Logo esquecem a raiva e as chibatadas. No fundo, eles sabem que eu tenho o poder e que faço o quero. Tenho nas mãos a lei, a justiça, a polícia e um bando cada vez maior de puxa-sacos.
O coronel de outros tempos ainda mora em mim e está mais vivo que nunca. Esse ser coronel que sou e que sempre fui é alimentado por esse povo contente e feliz que festeja na senzala a minha necessária existência .