Especulação imobiliária, transporte e lixo governam cidades, diz Pochmann

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Para ex-presidente do Ipea, enquanto correlação de forças não se alterar, não haverá mudanças significativas nas metrópoles brasileiras

 

Porto Alegre – Ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e candidato à prefeitura de Campinas em 2012, Marcio Pochmann projeta que o tema das cidades será um dos principais pontos a ser debatido nas eleições presidenciais e estaduais de 2014. “Esse assunto ganhou muita ênfase com as manifestações. Será a pauta principal do debate eleitoral”, acredita. O economista esteve em Porto Alegre na noite de segunda-feira (19) para participar do seminário Reconquistar a cidade: o conhecimento como estratégia das mudanças, promovido na Câmara Municipal pelo mandato da vereadora Sofia Cavedon (PT).

Para Pochmann, é preciso revisar o sistema federalista brasileiro, que ele qualifica como competitivo e baseado em modelos do século XIX. “O prefeito se transforma em um executor de políticas federais”, lamenta.

Marcio Pochmann observa que existem três forças políticas que atualmente governam as cidades brasileiras: o capital da especulação imobiliária, o capital das empresas que operam o transporte público e o capital das empresas que operam os serviços de coleta e destinação do lixo.

Ele entende que, enquanto essa correlação de forças não se alterar, não haverá mudanças significativas nas metrópoles. “A reinvenção das cidades pressupõe a construção de uma nova maioria política. Não existe futuro com esses três grupos”, explica.

Marcio Pochmann sustenta que o século XXI será “o século das cidades”. E, por isso, defende que as metrópoles se reinventem para oferecer qualidade de vida e direitos sociais ao novo perfil demográfico que o país terá nas próximas décadas – com o crescimento da população idosa e a diminuição do número de pessoas por família.

O economista acredita que um dos principais entraves à qualidade de vida nas cidades é a “disputa do tempo” dos seus habitantes. “A questão fundamental é: como usar nosso tempo livre?”. Neste debate, Pochmann questiona o papel trabalho – imposto como determinante – na vida dos cidadãos, sugerindo que este modelo precisa ser repensado. “Uma coisa é o trabalho no capitalismo como condição de sobrevivência. Existem formas de trabalho que não são regidas pela dependência monetária”, pontua.

Limites da agenda social

Presidente da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, Pochmann também teceu algumas considerações sobre a política nacional. Para ele, existe “um certo esgotamento da agenda da inclusão social”, que, na sua opinião, não consegue se aprofundar mais no atual arranjo político do governo federal.

“A maioria política construída em 2002 nos permitiu recuperar a agenda da inclusão social, que estava interrompida desde 1964. Mas é insuficiente para darmos um passo posterior e construir uma agenda civilizatória que vá além apenas da inclusão pelo mercado”, analisa.

Pochmann disse que as manifestações de junho deste ano demonstram os limites de um projeto “ubrano-industrial e social-democrata de inclusão na sociedade de consumo”.