As veias abertas, a dependência e a geografia da fome na América Latina

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Os brasileiros Rui Mauro Marini e Josué de Castro e o uruguaio Eduardo Galeano nos dão, juntos, uma bela síntese do que fomos, somos e podemos ser Roberta Traspadini

Em 1970, o uruguaio Eduardo Galeano, terminava de escrever um dos mais deliciosos e profundos livros sobre nosso continente: As veias abertas da América Latina.

Entre as várias argumentações desenvolvidas por ele, estava a constatação de que a América Latina era o território escravizado pelos EUA em seu afã de seguir hegemônico no cenário imperialista mundial.

Galeano explica, como Josué de Castro o havia feito há alguns anos, em seu livro Geografia da Fome, que o subdesenvolvimento não podia ser entendido fora da lógica geral de funcionamento do modo de produção capitalista. Dizia o autor: “nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia, nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros: os impérios e seus agentes nativos. Na alquimia colonial e neo-colonial, o outro se transforma em sucata e os alimentos se convertem em veneno.”

Contemporâneo de Galeano, Marini, um mestre e tanto, que como os outros não separava teoria de ação revolucionária, nem prática de reflexão concreta sobre o real e o possível dentro do real de ser transformado, escrevia na dialética da dependência, que o resultado do desenvolvimento capitalista seria a miséria de nossos povos.

Nos ensinam esses mestres, que a característica histórica da América Latina foi, e é, a de ter suas riquezas naturais, energéticas e vitais (a partir do pulsar da força de trabalho que habita na continente), apropriadas privadamente pelos detentores hegemônicos do modo de produção-acumulação capitalista central. Esse servir, baseado na perda do que é próprio, se sustenta nos históricos vínculos de dependência e subordinação centrados no poder dos países hegemônicos sobre a periferia.

Os dados atuais (CEPAL) da América Latina nos mostram não só o quanto vem sofrendo ao longo da história a maior parte de nossos sujeitos-sujeitados pelo capital, mas, também, o terreno fértil da continuada superexploração do trabalho no continente. Um mecanismo que nos anos 40-60 era particular do continente e que agora evidencia sua projeção global.

América Latina faz escola na reprodução ampliada da lógica animal do capital, cujos donos irracionais vivem bem, porque sujeitam muitos a viverem mal. É do roubo do tempo que falamos. Cada vez mais, o capital global, rouba mais tempo, ao pagar menos salários e quebrar todos os direitos trabalhistas, como forma de não romper seu circulo vicioso da riqueza centrado na pobreza da condição humana.

Esse mecanismo de extrair sobre-trabalho do mesmo tempo de trabalho de outros sujeitos em outras partes do mundo, foi a característica particular encontrada pelo capitalismo periférico para compensar suas perdas nos mercados mundiais, cujo centro de produção de valor e de preço de mercado estava nas mãos de capitalistas centrais, mais poderosos que os latinos.

Enquanto os trabalhadores centrais eram considerados consumidores, uma vez que a produção tinha como vínculo o consumo-mercado interno e externo, os trabalhadores da periferia, como nós os latinos, não eram consumidores diretos dos bens produzidos, uma vez que o objetivo central do capital latino era, e é, produzir para exportar.

Essa diferença do modo de funcionamento da produção e da circulação de mercadorias foi o que permitiu uma forma particular de acumulação privada do capital latino, frente à sua forma geral de funcionamento mundial.

É por meio da economia política que Marini nos ensina o quanto a América Latina por ser rica tinha sua desgraça centrada na debilidade política. Elemento que a faria ser pobre nas condições objetivas de realização da sobrevivência de sua população, dado o poder hegemônico dos países centrais em ditar as regras (inter)nacionais das relações econômicas mundiais.

Como Galeano e Marini, Josué de Castro também reforçava o fato de que o subdesenvolvimento é o resultado de um processo de desenvolvimento centrado nos grandes, a partir das múltiplas formas de roubo de nossas riquezas. América Latina sem identificação soberana e autônoma consigo mesma, frente à hegemonia dos centros.

Dizia o mestre Josué: “O subdesenvolvimento não é, como muitos pensam equivocadamente, insuficiência ou ausência de desenvolvimento. O subdesenvolvimento é um produto ou um subproduto do desenvolvimento, uma derivação inevitável da exploração econômica colonial ou neocolonial, que continua se exercendo sobre diversas regiões do planeta”.

Essas veias abertas que fazem com o que o capital avance na intensificação da exploração do trabalho e da apropriação privada dos recursos naturais de nossa América, chega no século XXI, com suas marcas visíveis sobre o corpo dos povos latinos.

Atualmente somos 580 milhões de latino-americanos (em 2010 seremos 594 milhões). 79,1% desta população vive nas cidades (458 milhões) e 120 milhões vivem na área rural. Destes, 35,1% vivem em situação de pobreza. Outros 12,7 % vivem em situação de indigência (miséria absoluta). Estamos falando de um total de 203 milhões de pobres e 73 milhões de indigentes.

Um destaque importante é relativo ao nível da pobreza e indigência da população rural latino-americana. Quando comparados os números com a média total da população vemos que a pobreza chega a 53,6% e a indigência engloba um total de 28,7% de nossa população camponesa.

Somos um número expressivo de marginais em um território rico. Os condenados da terra, não por desígnios divinos, mas por ordens animalescas advindas de expropriadores privados das riquezas soberanas, autônomas, que por mais que nos pertençam, ainda não são nossas. Falamos de um total de 276 milhões de pessoas vivendo em situações marginais num continente que permanece, após longos séculos de exploração e expropriação, rico em recursos e pobre no poder de distribuição para si mesmo, e seus sujeitos, desta riqueza.

O imperialismo encontra na América Latina, um terreno fértil de reprodução de suas mazelas político-econômico-ideológicas: o subimperialismo. A capacidade de reproduzir, a partir do mando dos países centrais, a mesma lógica perversa de apropriação, via Estados soberanos nacionais, das riquezas dos países politicamente mais débeis do continente, a partir do poder das economias mais fortes. Um círculo vicioso da pobreza capitalista, centrada na acumulação da riqueza de nossos bens. Os Estados centrais, em parceria com os Estados latinos, roubando em nome do capital, os recursos do nosso território e jogando à mendicância parte expressiva de nossos trabalhadores, povos autônomos, seres para si, fora de si mesmos, em seu continente.

Em 2010, 276 milhões constituirão a PEA, distribuída entre 163 milhões de homens e 113 milhões de mulheres em idade produtiva para estar incluída no setor formal da economia. Entre estes, teremos um total de 202 milhões de jovens com 15 a 34 anos de idade. Destes jovens, 100 milhões são homens e outros 102 milhões são mulheres. A população juvenil latina corresponde a 33,9% da população total e 73,9% da população apta a trabalhar.

Ao pensar as características da superexploração na América Latina hoje, temos que ver quanto o capital, a partir dessa expressiva quantidade de jovens (homens e mulheres e entre eles a distinção de etnias/raças), conta com um terreno fértil de apropriação privada das riquezas a partir da intensificação da exploração do trabalho.

Todos estes três autores discutiram o texto-contexto latino, a partir do grau de desenvolvimento das forças produtivas capitalistas na América Latina e da participação desta no mundo do capital. Esses mestres eram implacáveis ao dizer que a única saída possível era, e é o socialismo, rumo ao comunismo.

Josué de Castro sustentava que sem violência não era possível frear a violenta ação capitalista. Marini dizia que a revolução não deveria ser pensada a partir das táticas viáveis do reformismo desenvolvimentista no continente. Galeano mostrava que as veias abertas, para permitirem uma livre, e real, circulação das riquezas e dos povos de Nossa América, deveriam se livrar desse câncer circulatório e reprodutivo que é o modo de funcionamento do aparelho capitalista. Os três mestres juntos nos dão uma bela síntese do que fomos, somos e podemos ser. Para ser, não devemos permitir que nosso sangue continue absorvido pelo vampiro que há anos suga o que de mais rico e originário temos: a história dos povos latinos, anterior ao capital e para além dele.