Diário de uma greve vitoriosa por Rubens Marques de Sousa (Dudu)

662
Da esq. para dir. João Fonseca, Jociene, Emanuela, Vera e Rubens Marques
na ocupação da prefeitura de Neópolis

Por determinação do companheiro Roberto Silva, vice-presidente do SINTESE e presidente da CUT, acompanhei de perto a greve do magistério municipal de Neópolis, uma vez que ele sofreu um acidente e ficou impossibilitado de viajar por orientação médica.

Fui a Neópolis cinco vezes durante o movimento paredista que durou mais de um mês, e lá vi o quanto as sub-sedes estão qualificadas para o embate técnico da educação, tanto quanto ao debate de ordem política.

Vi dirigentes que conhecem o ritual de uma greve como a rezadeira de ladainha conhece cada conta de um rosário, tudo no seu devido tempo e lugar.

A logística para as mobilizações na sede do município e também nos povoados funcionou perfeitamente, e não foi diferente a política de comunicação nas redes sociais, emissoras de rádio, panfletos, e falas nos carros de som. Foi uma das poucas greves que vi nesses longos anos de militância sindical que contou com tanto apoio dos pais, estudantes e da população. Isso foi determinante na correlação de forças entre o sindicato e a administração do município.

O apoio dos pais, estudantes e amplos setores da população foi resultado da credibilidade dos professores e do SINTESE de Neópolis. Isso ficou patente na audiência (dia 10/3), mas não só; prova dessa credibilidade foi ouvir o núcleo duro da prefeitura pronunciando em vários momentos o nome da nossa aguerrida entidade com todas as letras.

A luta do magistério teve vários capítulos, começou com paralisação de advertência, em seguida a deflagração da greve geral por tempo indeterminado. A partir daí, iniciaram as manifestações públicas, realização de pedágios, contato direto com os pais na cidade e povoados, pressão na Câmara de Vereadores, cobrança ao Ministério Público e Poder Judiciário… teve até um bloco carnavalesco que misturou diversão com irreverência, ao levar a pauta da categoria para as ruas enfeitadas de Neópolis.

Com o diagnóstico pronto do cenário de disputa, a direção do SINTESE usou da experiência para identificar o momento certo e dar o xeque mate: quando professores, pais e alunos ocuparam o prédio da prefeitura, e de lá só saíram depois de uma audiência que apontou para a negociação do dia 10 de março. Nesta data certeira encerrou-se a greve por decisão soberana da assembleia, que concordou com a proposta apresentada pela comissão de negociação.

Das audiências que já participei, não só de professores, mas de outras categorias a exemplo de uma greve histórica da construção civil em Aracaju, essa de Neópolis foi uma das mais tensas, mais tumultuadas. Os nervos estavam acirrados, principalmente do staff da prefeitura que entrou na audiência com a faca nos dentes, e por pouco o prefeito não se levantou e suspendeu as negociações.

Como não estávamos ali rezando, (como na tela da Santa Ceia, de Leonardo da Vinci), mas defendendo os direitos da categoria, não havia santo sentado na mesa, e por isso mesmo foi fogo cruzado dos dois lados. Pancada verbal de lá, pancada verbal de cá, e num determinado momento quando a artilharia oficial mirou os canhões de Navarone para nós, Glaudson e Emanuela revidaram com dois morteiros soviéticos, com o carimbo de Lenin para exigir respeito.

Enquanto a guerra tática se desenrolava na sala de audiência, os professores, pais e estudantes aguardavam ansiosamente acampados em frente à prefeitura, que em caso de fracasso das negociações poderia ser alvo de nova ocupação.

Alguns detalhes merecem destaque nesse diário: um deles foi o nível de excelência com que Glaudson (assessor do SINTESE) atuou no duelo que travou com o pessoal do controle interno e da área contábil da prefeitura.

Outro detalhe foi a sintonia entre a liderança de Silvaneide, sempre serena como a estátua da deusa grega Irene, e Jociene, que oscilou entre a calmaria e a erupção (me fez lembrar o Vesúvio); assim cada uma cumpria uma função.

Eu só conhecia Jociene como a moça ‘peace and love’, mas vi que se precisar, ela eleva o tom de voz e encara os adversários com direito a dedo na fuça.

Emanuela foi para mim uma “surpresa agradável”, pois a vi chegando ao SINTESE anos atrás como uma neófita, quase uma normalista acanhada, e hoje ela dançou de acordo com a temperatura, sem perder o foco do debate, hora dançava o “Quebra Nozes” de Tchaikosvsky, hora dançava o “Heavy Metal” do Iron Maiden. Emanuela é referência de luta!!!

E Vera? Na condição de principiante (mas muito observadora), eu a vi assustada com o machismo que dominou o debate. Parecia mais um concurso para ver quem falava mais alto, quem intimidava mais, até que Manuela bateu na mesa e enquadrou os pithecanthropus erectus (risos). Vera promete, tem qualidades, é só esperar.

Benalva ficou na organização da logística e não subiu para a audiência, mas mesmo assim foi citada pelo secretariado várias vezes (ela incomoda).

Às 15h do dia 10, aconteceu a assembleia para avaliar o resultado das negociações e, por unanimidade, a categoria votou pela suspensão do movimento paredista, ficando em stand by a proposta do governo de conceder somente 5% de reajuste, até o início de maio, quando o pleito do SINTESE de atualização do PSPN será objeto de parecer da administração. Quanto às reformas das escolas e do transporte, umas já começaram, outras dependerão de processo licitatório.

Como nenhuma luta nasce de uma chocadeira como pinto órfão, é preciso lembrar da companheira Marly, que é, sem dúvida, vanguarda dessa luta, porque durante anos se posicionou na trincheira do magistério. O mesmo posso dizer de Anieide, que apesar de estar aposentada marcou presença em vários atos durante a greve.

A comissão de negociação composta por Jane Maria dos Santos, Zuliene, Maria da Silva e Ester Maria Cerqueira completou o EFRM – Exército Feminino Revolucionário do Magistério do Baixo São Francisco II.

Não citarei todos os nomes que estiveram na trincheira de lutas, mas alguns ficaram gravados em um quadro pendurado na parede da minha memória (essa frase não é original), a exemplo de Cristiane, Rosinete Batista dos Anjos, Judite dos Santos e também outros que passaram para prestar a sua solidariedade e saíram porque estavam em outras agendas como foi o caso de Zé Nilton, Alecsandra, Zé Monteiro…

O Sindicato dos Agentes de Saúde e de Endemias, como também o sindicato dos servidores estiveram presentes no bloco de carnaval dos professores preparando solidariedade.

Quem também se fez presente em Neópolis durante a greve foi o dirigente da FETAM (Federação dos Servidores Municipais de Sergipe), companheiro João Fonseca.

Antes de encerrar, faço questão de descrever a minha impressão dos momentos em que o carro do SINTESE se aproximava da concentração em frente à prefeitura. Parecia o trem fumegante que levava os bolcheviques à estação de São Petersburgo, um dos palcos da revolução socialista.

Parabéns, aprendi muito com vocês!!!