Sou professora: não gostaria de receber cesta básica

O desabafo de uma professora do município de Santo Amaro das Brotas

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Os professores da rede municipal de ensino de Santo Amaro das Brotas sofrem há longos anos com parcelamento e atraso de salários, além da luta constante na busca de condições de trabalho. O Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica do Estado de Sergipe – SINTESE representa essa categoria, ou seja, me representa e luta firmemente para que os nossos direitos sejam garantidos.

Ao tempo que, se essas garantias forem respeitadas, estendem-se as necessidades das famílias de seus filiados. Sim, se as lutas dessa classe buscam negociar salários, defendem que sejam pagos em dia e ampliam benefícios para o (a) trabalhador (a), isso reflete no bem estar da minha família, e na família de cada professor (a) filiado (a) ou não, afinal as conquistas vêm para todos.

A contribuição ao SINTESE é paga de forma voluntária, e compete apenas para aqueles que optaram pela filiação. O objetivo principal dessa contribuição é financiar as atividades de organização e mobilização da categoria, participação do sindicato nas negociações coletivas, proporcionar o pagamento de assistência jurídica, da assessoria de imprensa, a nossa participação em cursos de capacitação profissional e formação política (conferência, seminários, congressos, oficinas), entre outros. Essas ações são indispensáveis não são? Mas, sem a contribuição sindical nada disso seria possível.

Com salários parcelados e atrasados, referente ao mês de abril, apenas 30% foi pago aos professores de Santo Amaro, entre os dias 20 e 22 de maio. Diante disso, o SINTESE realizou doação de cesta básica aos seus filiados, como forma de minimizar o impacto desse desrespeito aos trabalhadores da educação. E eu, como profissional da educação, não gostaria de receber cesta básica do sindicato, porque extrapola as suas funções.

É a segunda vez que essa entidade representativa faz isso de forma solidária. Não devo sentir contentamento com os itens que integram a cesta, pois fico constrangida por tal situação. O meu salário permite que eu abasteça a minha dispensa, que coloque alimento no prato da minha família, e sei também que os gastos financeiros que custearam as cestas básicas farão falta nas lutas travadas em todo o estado de Sergipe. Afinal, não é a cesta doada que demonstrará a força da luta e o alcance das conquistas para nossa categoria em cada município.

Eu gostaria que os gestores públicos de Santo Amaro não olhassem para a educação como despesa, mas como investimento! Os docentes reivindicam respeito, pois são agentes de transformação social, porque os professores e as professoras, ampliam horizontes numa perspectiva de sociedade mais justa. Reivindicamos que nossos salários sejam pagos em dia, com valorização a regência de classe e as condições adequadas de trabalho. Somos dignos de aplausos, prestamos relevantes serviços a nossa comunidade.

Ao SINTESE, o meu reconhecimento pela sua atuação, mais uma vez, cumpre um importante papel social, para além das suas atribuições. Desejo, que não seja mais necessário receber cesta básica, desejo vibrar pelas vitórias das lutas que venceremos, chamar cada colega de trabalho de companheiro (a) porque juntos somos fortes. E, desejo mais ainda, que os professores comparem o que recebem com o que contribuem, se colocarem na balança verão que sem a organização sindical não teríamos força, nem voz e muito menos cesta básica.


Ellen Leslie Santos – Professora da rede municipal de ensino de Santo Amaro das Brotas – 26/05/2020