Caetano Veloso sempre diz: “É incrível a força que as coisas parecem ter, quando elas precisam acontecer”. O que, no princípio, era apena uma data e que para muitos desnecessária, começa a dar seus frutos. Dia 20 de novembro, mais precisamente, ontem, foi comemorado o Dia da Consciência Negra. Por isso, hoje, vamos falar diretamente para as pessoas que ainda não entenderam seu real significado e a importância de sua construção.

Vamos sussurrar nos ouvidos de quem, à boca miúda, diz: “para que Dia da Consciência Negra se não temos o dia da consciência branca?” Claro que um pensamento assim só pode vir de um lugar de fala onde consciência nenhuma habita ou de um deserto de conhecimento histórico.

Precisamos sublinhar que esta data está ligada a dois fatos muito importantes. Primeiro: Consciência Negra era o nome de um movimento antiapartheid que estava à frente de greves que fragilizaram a política segregacionista na África do Sul em 1973. O movimento era liderado por ativistas como Steve Biko, morto em 1972. Segundo: o vinte de novembro foi o dia em que morreu Zumbi dos palmares, um ícone da liberdade e um bastião da valorização do povo negro brasileiro.

Essas informações, um tanto rasas, são profundamente necessárias para nos servir de ponte para atravessarmos o abismo racial que há muito vem dividindo nosso país e nos ligar ao tema de nosso editorial que é: “o Dia da Consciência Negra e a importância de representatividade política”. Também, não poderia existir um momento mais adequado para cotejarmos estes dois assuntos, pois acabamos de conhecer os resultados das últimas eleições, bem, pelo menos, no primeiro turno.

Vimos que o que era apenas uma ideia se reificou. O que era visível ao coração, mas invisível aos olhos hoje já começa ter corpo, voz e vez. A população negra amplia sua presença no cenário político brasileiro.

Segundo a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, 58 quilombolas foram eleitos em diversos estados do Brasil no último dia 15 de novembro. Dos cerca de 500 quilombolas que concorreram, 56 foram eleitos vereadores, um prefeito e um vice prefeito.

Em Belém, no Pará, Vivi Reis, uma mulher negra foi a quinta mais votada.

Em São Paulo quatro mulheres negras e seis homens negros vão ocupar o parlamento.

Com 3.126 votos, a professora e servidora pública aposentada Ana Lúcia Martins foi eleita a primeira vereadora negra da história de Joinville, no Estado de Santa Catarina.

Segundo levantamento feito pelo Brasil de Fato, treze mulheres negras estão entre as dez candidaturas mais votadas em grandes capitais do Brasil.

Estes resultados mostram que os pretos e pardos tiveram um avanço nas eleições para prefeitos em todo o país com 32% dos eleitos no primeiro turno, os brancos somaram 67%, segundo dados do TSE, Tribunal Superior Eleitoral. Ainda é pouco, sabemos disso. Porém, antes tarde do que mais tarde. É melhor trinta e dois por cento de alguma coisa, que cem por cento de nada.

Estamos atravessando oceanos de desigualdades. Estamos extirpando os tentáculos do preconceito. Vimos, por meio dos resultados das eleições deste ano, que o Dia da Consciência Negra está cumprindo sua missão. Está ajudando a construir, em cada um de nós, uma nova ideia de povo, de nação. Afinal, estamos começando a entender que empoderar a população negra não é enfraquecer os brancos, é fortalecer o Brasil.

Sintese: Somos Muitos. Somos Fortes.