Na semana de 57 anos do golpe, ‘fake news’ de Bia Kicis volta a ameaçar a democracia

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Foto: ALBERTO MARAUX/SSP-BA

Radicais, como Bia Kicis, manipulam morte de PM na Bahia para “insuflar os ânimos de policiais contra o governador” e “desestabilizar estado que é notoriamente contra Bolsonaro”, diz tenente-coronel aposentado

Escrita por Clara Assunção | RBA

Para o tenente-coronel aposentado e doutor em Psicologia Adilson Paes de Souza, as manifestações “nitidamente partidárias” de bolsonaristas, a partir de uma fake news disparada pela deputada Bia Kicis (PSL-DF) sobre a morte de um policial militar da Bahia, neste domingo (28), que, em surto, fazia disparos de fuzil em um ponto turístico de Salvador, é uma “tentativa de manipulação para insuflar os ânimos dos policiais contra o governador” da Bahia, Rui Costa (PT), e de “atacar as medidas sanitárias que são mais do que imprescindíveis para conter a pandemia de covid-19”.  

No limite, elas também incitam a um motim policial, como o ocorrido no Ceará, no início do ano passado, quando forças policiais se insubordinaram e se amotinaram contra o governador Camilo Santana (PT), também da oposição ao governo federal. “Existe essa possibilidade sim e não devemos descartar”, alerta o ex-tenente coronel. 

A ofensiva teve início ainda na madrugada desta segunda (29). Logo depois de a presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, Bia Kicis, associar, sem provas, em seu Twitter, que o soldado Wesley Soares Góes havia sido morto por seus colegas de farda porque “se recusou a prender trabalhadores” que eram supostamente contra as medidas de isolamento social decretadas pelo estado.

Em surto

O policial, no entanto, foi baleado no início da noite de domingo após ter invadido o gramado em frente ao Farol da Barra, em Salvador, com um carro particular, por volta das 14h. Fora do veículo, ele disparou dezenas de tiros de fuzil para o alto. E, com o rosto pintado de verde e amarelo, gritava palavras de ordem como “comunidade, venha testemunhar a honra ou a desonra do policial militar do estado da Bahia”. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública da Bahia, às 15h, uma equipe do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), enviada ao local, iniciou a negociação. 

A pasta diz que Wesley Góes alternava momentos de lucidez com acessos de raiva, num possível surto psicótico. Além dos tiros, o soldado arremessava grades, isopores e bicicletas ao mar. Mas, depois de 3h30 de negociação, ele começou a disparar contra os agentes das forças de segurança. Que, em resposta, atiraram de volta, atingindo o PM após pelo menos 10 tiros. Wesley foi levado ao Hospital Geral do Estado (HGE), mas não resistiu. 

Bia Kicis e o crime

Ao sair em defesa do soldado, Bia Kicis não só o alçou a herói, como convocou os demais agentes para um motim. “Esse soldado é um herói. Agora a PM da Bahia arou (sic). Chega de cumprir ordem ilegal!”, incitou a presidente da mais importante comissão do Legislativo. Já investigada no inquérito das fake news e dos antidemocráticos, a deputada foi amplamente criticada. Parlamentares da oposição ainda destacam que ela não tem condições de permanecer à frente da presidência da CCJ. 

“Bia Kicis utilizou o fato de um PM em surto ser morto ao atacar colegas a tiros na Bahia para faturar politicamente com a tragédia. Anuncio que iremos trabalhar com todas as forças para inviabilizar o funcionamento da CCJ enquanto ela seguir presidida por esta fascista. O limite do bom senso já foi superado há muito tempo e qualquer condescendência com as atitudes de Bia Kicis é cumplicidade com crimes”, contestou a deputada Fernanda Melchionna (Psol-RS), coordenadora do partido na CCJ. 

Após a repercussão negativa, a presidente da comissão apagou o post e defendeu que o episódio seja investigado. Mas a fake news já havia sido espalhada desde as primeiras horas em vídeos e áudios por outras redes sociais. O deputado estadual Soldado Prisco (PSC-BA), explorava o fato já no momento das negociações do Bope com o PM em surto, que registrava em live

Mentiras bolsonarista

Conhecido por liderar greves da Polícia Militar no estado, entre 2012 e 2014, Prisco aparece em vídeos gravados em frente ao hospital, para onde Wesley havia sido levado, conclamando os policiais a iniciarem um motim, sob gritos de “a PM parou”. Além dele, outras figuras públicas bolsonaristas, como o vereador de Fortaleza Sargento Reginaura (Pros), os deputados federais Carla Zambelli (PSL-SP) e Carlos Jordy (PSL-RJ) e o secretário de Comunicação Institucional, Felipe Pedri, reforçaram a falsa narrativa de ataques às medidas sanitárias e de incitação a atos antidemocráticos. 

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, chegou a sugerir que a imprensa estaria “abafando” o caso. “Esse sistema ditatorial vai mudar”, escreveu. O próprio Comando da PM ressaltou, contudo, que não relaciona o aparente surto psicótico do policial com a contrariedade em cumprir as medidas de contenção da pandemia do governo de Rui Costa. 

Para Adilson Paes, toda essa “manipulação” política do caso busca “desestabilizar um estado da federação que é notoriamente contra Bolsonaro. Está havendo uma exploração política do pior valor possível”, criticou. 

Atentando contra a democracia

“A tentativa da manipulação desse fato é para insuflar os ânimos dos policiais contra o governador do Estado, falando em paralisação, pregando insurreição, a desobediência às ordens do governador. Eu considero isso uma leviandade tão grande contra a vida do policial que foi morto, dos familiares desse policial, e das milhares de pessoas que dependem da polícia para poder tocar suas vidas principalmente num contexto de pandemia. Não se faz política sobre cadáver humano, catástrofe humana. É uma falta de respeito ao próprio policial e à sociedade geral quando alguém age dessa maneira”, completa. 

O modo como a ofensiva anti-democrática foi construída chama mais atenção por ocorrer na semana em que o golpe civil-militar de 1964, completa 57 anos nesta quarta, 31 de março. Desde as eleições de Jair Bolsonaro, há três anos, que diversos especialistas alertam para o que chamam de partidarização das polícias. Um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, publicado no ano passado, apontou que 41% dos soldados, cabos, sargentos e subtenentes mostram afinidade com os discursos golpistas das forças políticas conservadoras. 

A questão prejudica os governadores que “não sabem se de fato eles são os comandantes chefes da política”, apesar da prerrogativa legal, como explica o tenente-coronel aposentado. “Temos uma escalada num fenômeno de insurreição das polícias contra os governadores visando a quebra da ordem. Vale notar que é típico do bolsonarismo a quebra da ordem. E as consequências são imprevisíveis e extremamente gravíssimas à democracia”,  alerta. 

Saúde mental é negligenciada

“Essa fala da deputada Bia Kicis, apregoando que os policiais deixem de cumprir ordem do governador, é a mesma fala do Bolsonaro quando diz que as pessoas têm que ir para rua. Que elas não podem cumprir ordens ‘absurdas’ e que tem que ser respeitada a liberdade individual. Há uma simetria de falas. E isso é gravíssimo porque a partir do momento que os policiais praticarem motim, além de não fazerem cumprir as ordens de restrição sanitária, que é para preservar vidas, estimulam e passam a ser agentes de instabilidade. Aí é um caos que se instala na nação”. 

Um inquérito policial militar foi instaurado para apurar as circunstâncias da morte do soldado Wesley Góes. Adilson Paes ressalta que, longe do que querem defender os radicais, é preciso investigar o que chama de “estética de atuação” do PM. Que usou de símbolos nacionalistas, como é comum também em manifestações do campo bolsonarista.

Doutor em Psicologia, ele diz que a saúde mental dos policiais é de fato negligenciada pelas autoridades. Mas aponta é que preciso uma investigação mais profunda para associar a atitude do soldado apenas ao sofrimento psíquico. Entre agentes militares e civis, por exemplo, a taxa de suicídios é triplo da verificada entre a população em geral, segundo relatório anual do FBSP. Em 2019, 65 PMs e 26 civis cometeram suicídios.

Transparência e investigação

Adilson defende que o computador, celular e as redes sociais de Wesley Góes também sejam investigadas, com a devida autorização judicial, para saber que tipo de ambiente o soldado frequentava ou com quem interagia. Além disso, o ex-tenente coronel questiona o controle sobre o fuzil usado pelo PM. Ele prestava serviço no batalhão de polícia de Itacaré, onde estava lotado. Mas deixou o local armado e seguiu com seu próprio veículo rumo à capital baiana, a cerca de 250 quilômetros.

“Isso precisa ser exposto à sociedade e tratado com maior transparência porque, além da perda da vida do rapaz, que é extremamente grave, e à vida das pessoas que estavam no Farol da Barra e que, de certa maneira, foram colocadas em risco com os disparos para o alto, pode ter aí o início da escalada de um movimento político. E a sociedade é obrigada a saber”, afirma o doutor em Psicologia. 

De toda forma, o especialista também destaca é que o modo como o caso foi tratado pelos bolsonaristas evidencia que a luta por direitos trabalhistas dos policiais vem sendo instrumentalizada eleitoralmente por forças que não têm a “menor preocupação com a vida do policial”. “Tenho certeza que os parlamentares que aproveitaram desse momento, e da morte de um policial como palanque político, não estão preocupados com os direitos dos policiais. Elas se apresentam como defensoras dos policiais, quando, na verdade, os manipulam”, finaliza o ex-tenente coronel Adilson Paes. 

RBA encaminhou à Secretaria Estadual de Segurança Pública e ao governo da Bahia um pedido de avaliação da repercussão política do caso. Também questionando sobre o controle do fuzil e o histórico do policial militar, mas até o fechamento desta nota o pedido não foi respondido.