São as respostas aos nossos “porquês” que dão sentido à nossa vida. Mas, repare, “porque não” não é resposta e “porque sim” também não. Pelo contrário, são, somente, as narrativas que construímos pelo caminho de nossa existência que conseguem justificar as nossas escolhas e avaliar cada uma delas, na medida e importância exatas.

Não se vai, somente, por ir e nem se fica, somente, por ficar. Há sempre um motivo que nos move. É um exercício de viver razoavelmente questionar sempre. Como diz Bertolt Brechet “Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar”.

A covid-19 está matando mais de quatro mil pessoas por dia. Perguntar carece: a quem interessa tantas mortes? Definitivamente, à economia é que não é, pois pessoas mortas não consomem. A quem interessa negar o óbvio e ululante que o distanciamento social e lock downs salvam vidas? A uma plateia embebecida pelas loucuras de seu líder, o macho alfa com porte de atleta, mas que quando foi contaminado pela covid ficou dias encastelado em Brasília com um séquito especializado cuidando de sua saúde e que não precisou ficar em fila de espera de uma UTI e nem sofreu por falta de oxigênio? Talvez!

Alguma coisa que está muito errada não pode estar certa. Cabe, neste momento, fazer um outro questionamento: estariam os seguidores de Bolsonaro sofrendo da Síndrome de Estocolmo, cujo abusados começam a nutrir simpatia, amor ou amizade pelo agressor? Há uma explicação para isso. Segundo a ciência, isso ocorre de forma inconsciente e irracional, e geralmente a vítima, ao desenvolver este mecanismo, passa a nutrir sentimentos positivos com relação a seu agressor, com o objetivo de amenizar as tensões existentes neste processo.  Porém, é preciso sublinhar que, aqui, não estamos falando de agressão contra a liberdade, como quer nos fazer acreditar o Presidente da República, mas sim de vida ou morte.

Não há, neste momento de pandemia, ir e vir sereno como, mal intencionadamente, apregoou o novo ministro da Justiça, Anderson Torres, afinando seu discurso ao do Jair Bolsonaro, para não confrontar o mandatário, a não ser o movimento lento dos carros funerários a caminho dos cemitérios. Nem a necessidade de se manter templos e igrejas abertos, isso, além de ser um gesto negacionista, contra científico, é o uso abusivo da fé em nome do capital. Precisamos lembrar aos fiéis que a oração acalenta, mas quem salva é o distanciamento social e a vacina.

Se puder, fique em casa. Se for sair use máscara, mantenha as mãos higienizadas e evite aglomerações. Lembrem-se, vivemos “em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar”. A morte não pode ser banalizada. Vamos promover a mudança ficando vivos. Se o Presidente do Brasil não que cuidar da vida de seu povo, cuidaremos nós.

Sintese: somos muitos, somos fortes.