Arranjos e rearranjos são inerentes a todas as proposituras políticas. O arcabouço de cada uma delas é um ponto passível de discussão. O que move toda a ação política é um fator que precisa ser muito bem interpretado, ou incorreremos no erro de cair na vala comum da “vontade política”.

Não! Não é apenas isso. O fazer e o deixar de fazer, no que diz respeito a política, seja no campo executivo ou no campo legislativo é plenamente circunstancial e depende, na maioria das vezes, do que o político pode ganhar ou deixar de ganhar tomando esta ou aquela decisão. Não é falta de vontade política, muito pelo contrário, dependendo das circunstâncias a inação é vontade política em excesso. Política não é para amadores, ainda mais em um cenário onde informação e desinformação disputam cabeça a cabeça, como em uma corrida de cavalos, para ver quem vai chegar na frente e conquistar o lugar de destaque no pódio das versões.

A política, muitas vezes, é um show de ilusão. É necessário um grande aparato para a mágica acontecer. Para que o público acredite no que está vendo é fundamental ser o mais realista possível. Todo um cenário deve ser construído. Todos os ajudantes devem estar em seus postos. Todos os movimentos devem ser muito bem ensaiados. Nada deve dar errado, pois, o mínimo de descuido pode colocar tudo a perder, principalmente a reputação do mágico.

Querem uma prova disso? Vejam a votação do PL 5595/2020, que torna a educação um serviço essencial. Precisamos, aqui, abrir parênteses para explicar o que são serviços essenciais; “São serviços públicos e atividades essenciais aqueles indispensáveis ao atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade, assim considerados aqueles que, se não atendidos, colocam em perigo a sobrevivência, a saúde ou a segurança da população”. Segundo os políticos que defendem essa ideia, o motivo que sustenta tal projeto de lei, que torna a educação um serviço essencial, deriva da pandemia. Na visão dos algozes da educação, a lei vai proibir que os professores façam greve na pandemia e assim exigir a volta às aulas presenciais.

Para ficar mais perto de nossa realidade, vamos tomar o Estado de Sergipe como exemplo. Estamos chegando quase ao final do mês de agosto. No máximo, até o final de setembro todos os profissionais da educação estarão vacinados, com a segunda dose, contra a covid-19 e aptos a voltar para as salas de aula com segurança, tanto para eles quanto para os alunos e alunas. Ora bolas, se professores e professoras em momento algum ficaram sem ministrar aulas; se conseguiram, a duras penas, por falta de apoio dos Governos, sustentar até agora a educação sendo praticada remotamente, o que custa esperar mais um pouco? Será que um mês faz tanta a diferença assim que exija um projeto de lei para obrigar os professores voltarem às salas de aula?

Então, vamos voltar ao texto do projeto e grifar: “greves serão proibidas e haverá exigência do retorno às aulas presenciais em todo o território nacional”. Acontece, que o direito de greve da categoria poderá ser comprometido, não somente enquanto durar a pandemia, mas sim “ad aeternum”, o que quer dizer, para sempre. Entenderam o truque?

Por isso, para pressionar senadores sobre a importância de vetar o PL 5595, a CNTE, Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, está à frente da campanha “Retorno às aulas presenciais somente com condições sanitárias”, com o intuito de cobrar das autoridades como medidas para uma volta às aulas segura e alertar sobre a população sobre os perigos de retorno sem segurança sanitária, em consonância com a interpretação do Sintese que, mantendo a greve pela vida, segue essa mesma diretriz.

Por fim, temos certeza de que nossos ouvintes não ficaram tristes por revelarmos o segredo escondido por detrás da PL 5595 que torna a educação um serviço essencial, mesmo porque, a magia que todos querem ver é aquela que só a vida pode proporcionar, não a magia da morte que faz desaparecer as pessoas que amamos.

Sintese: somo muitas, somos muitos, somos fortes.