No mês em que festejamos o centenário de Paulo Freire, um dos mais brilhantes pensadores brasileiros, autor pernambucano de obras que se tornaram referências na pedagogia mundial e influenciou diversas áreas do conhecimento, tivemos o desprazer, também, de ver e ouvir o discurso do Presidente Jair Bolsonaro na Assembleia da Organização das Nações Unidas. Por isso, hoje queremos falar sobre uma antinomia chamada Brasil. Afinal, é difícil entender como um país que presenteou o mundo com uma pessoa tão brilhante quanto Paulo Freire, teve a infelicidade de apresentar, não na mesma proporção, é claro, o presidente Jair Messias Bolsonaro. 

Pois, se, na Oceania, na Europa e nas Américas, o pensador brasileiro Paulo Freire é reconhecido e estudado. Bolsonaro, por seu turno, é desprezado e ignorado pela maioria dos países do mundo. Enquanto Freire ganhou dezenas de títulos de doutor Honoris Causa ao redor do planeta e recebeu honrarias como o Prêmio de Educação para a Paz, da UNESCO. Bolsonaro recebeu o título de pior líder do mundo.  

De acordo com levantamento de Elliot Green, professor da London School of Economics, o livro “Pedagogia do Oprimido”, publicado por Freire em 1968, é o terceiro livro mais citado das ciências humanas. Bolsonaro, por sua vez, não consegue, sozinho, escrever uma carta com dez parágrafos. 

Freire publicou sua teoria dialógica em 1968 e ela vem, cada vez mais, encontrando espaço não apenas nas ciências humanas atuais, mas também em todas as ciências. Bolsonaro criou a teoria do tratamento precoce para covid-19 que, assim como ele, provou-se ser totalmente ineficaz e é rejeitada pela ciência mundo afora.  

Freire pregava a humildade, o diálogo, a tolerância e compromisso com a educação e seus trabalhadores, ao contrário de Bolsonaro que prega o ódio, dissemina a discórdia, preza pela mentira e tenta destruir o ensino público e a carreira do magistério. Basta olhar para as intervenções nas universidades federais e a nova reforma do ensino médio proposta pelo seu governo.  

A produção intelectual de Paulo Freire teve impacto fundamental nas mentes mais brilhantes do mundo e foi homenageado com uma estátua ao lado de outros pensadores e figuras públicas em Estocolmo, capital da Suécia. Já Bolsonaro, está vendo sua figura sendo arrancada não somente dos adesivos dos carros de seus ex-apoiadores, os quais ele decepcionou, mas também da história republicana brasileira.  

Os discursos de Paulo Freire eram propositivos, bem-intencionados, comprometidos com a verdade e nos enchiam de orgulho. Por outro lado, Bolsonaro, em seu discurso na ONU, nos envergonhou perante o mundo, pois além de mentir descaradamente, inventar cenário, apresentou um islanfobismo sem tamanho.  

Em relação à verdade o discurso de Bolsonaro não poderia ser diferente. Como esperar algo de verdadeiro de um presidente que se empenha em manobras para alterar o marco regulatório da internet e assim proteger a máquina de fake news, e seu gabinete do ódio? 

Bolsonaro é um maluco que coloca Dr. Simão Bacamarte, personagem do livro “O Alienista”, uma das obras mais conhecidas de Machado de Assis, no chinelo. Mas, Bolsonaro não é um louco qualquer. Sua loucura tem método. Precisamos entender para quem ele estava falando. Será mesmo que era para um cercadinho ou ele pretende se colocar como um porta-voz da extrema-direita mundial na América do Sul para receber algum dinheiro dos transloucados americanos que financiaram Donald Trump e querem estender seus tentáculos até o lado de baixo do equador? É bom lembrar que Steve Bannon, o marqueteiro de Trump responsável pelas fake news produzidas na campanha eleitoral do “agente laranja”, esteve no Brasil a convite do filho de Bolsonaro.  

Para encerrar, precisamos dizer que só nos resta torcer para que o mundo mantenha fotografado em sua retina a imagem do Brasil de Paulo Freire e esqueça, de uma vez por todas, a de Bolsonaro. Pois esse sujeito nos obrigou a mudar a maneira de preenchermos determinados documentos. Agora, no espaço destinado à nacionalidade ao invés de escrevermos “brasileira” teremos de escrever “humilhada”.

Sintese: somos muitas, somos muitos, somos fortes.