Enfrentamento ao desmonte do ensino médio e a imposição curricular é debatido em segunda mesa da XVI Conferência Estadual de Educação

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A primeira mesa deste segundo dia da XVI Conferência Estadual de Educação do SINTESE , que aconteceu na manhã desta sexta-feira, dia 26, foi voltada para debater  o desmonte do ensino médio e a imposição de  um currículo que desconsidera as diferenças e as vivências de estudantes, professores, professoras em cada escola.

O debate foi iniciado com a fala do professor Dr. Fernando Cássio, da Universidade Federal do ABC. O tema tratado por ele foi “O desmonte do Ensino Médio Público já está em curso”

A segunda palestrante  foi a professora da Universidade Estadual da Bahia, Dra. Iris Verena Oliveira, que tratou “Projetos de vida, necropolítica e prática curriculares de resistência”.

O Novo (velho) Ensino Médio

O professor Fernando Cássio começou destacando que há quatro anos somos bombardeados por propagandas do Novo Ensino Médio, na tentativa de convencer a sociedade de que este “Novo Ensino Médio” é algo revolucionário e inovador.

Para o professor a necessidade de propagandear tanto o “Novo Ensino Médio”, mostra que ele não tem legitimidade  entre as comunidades escolas e profissionais da educação.

“Se ele fosse amplamente legitimado, as rede não precisariam repetir aquela propaganda, velha propagando do governo Temer, de que a escola pública vai muito mal, que o ensino médio é ultrapassado, que disciplina é coisa do século passado, de que os alunos devem se profissionalizar na escola. Esse investimento em propagando, em pautar a mídia para dizer que é ‘bom’ o Novo Ensino Médio, toda essa insistência, só existe porque o Novo Ensino Médio não é legitimado”, avalia Fernando.

O professor tratou o Novo Ensino Médio como “ensino médio Nem nem”, em um trocadilho com a sigla “Nem”, sigla usada pelo Governo para abreviar “Novo Ensino Médio”.  O “nem nem”, se refere a jovens que “nem” estudam e “nem” trabalham.

“Os jovens que ‘nem trabalham e nem estudam’  é um fenômeno social real, que precisa ser enfrentado com muita seriedade. A questão é que os implementadores do Novo Ensino Médio atribuem esse fenômeno social, a responsabilidade desse fenômeno, a escola. Ou seja, é o ensino médio, a escola, especialmente a escola pública, a responsável por esse grande contingente de jovens nesse limbo. Muitas coisas levem os jovens a não seguir os estudos: o desemprego, a pauperização de suas famílias, falta de políticas sociais e até a própria falta de investimento na educação pública, de maneira ampliar o horizonta dessa juventude enquanto ela está na escola”, coloca

Fernando Cassio aponta que  a propaganda do Governo vai mirar todas suas armas para a escola, vai depositar na escola e também nos profissionais da educação, especialmente nos profissionais do magistério, toda responsabilidade por essa chaga social, tudo isso para justificar uma reforma curricular.

“A agenda é essa, colocar nas escolas a responsabilidade de todos os problemas e propor uma mudança de currículo. A ideia não é propor uma reforma no salário dos professores, propor uma política de valorização de carreira efetiva. A ideia não é fazer uma política social para garantir a permanência dos estudantes nas escolas, não é uma política para melhorar substantivamente a estrutura das escolas.  A ideia é vender uma política de currículo que ‘resolva’ a chaga da geração ‘nem nem’. O problema é que essa política não entrega o que promete, pelo contrário ela traz mais desigualdade”,  afirma taxativamente.

O professor Fernando Cássio diz considerar o ensino médio “nem nem” um desmonte gravíssimo da educação brasileira, um desmonte sem precedentes.

“Estamos falando na mudança do regime de trabalho dos professores, a gente tá falando na mudança do currículo, a gente tá falando quase numa forma de reescrever o pensamento científico, essa ideia de acabar com as disciplinas e apagar questões que são epistemológicas. Interdisciplinaridade não é apagamento de disciplina. É uma reforma que tem concepções pedagógicas equivocadas. Por isso, precisamos resistir”, finaliza.

Transgredir a BNCC para esperançar

A professora Iris Olivera chamou aos presentes a pensar o currículo como “uma experiência de estar com o outro” ou “uma experiência de estar diante do outro”

“Não estamos aqui pensando currículo como lista de conteúdos, como simplesmente aquela disciplina que vai ser inserida ou retirada, mas sim nesss relações que estabelecemos na escola como práticas curriculares e como essa experiência de estar diante do outro nos modifica nessa vivencia na escola”, fez o chamamento.

A professora colocou que a defesa de sua fala é de transgressão a BNCC,  aos currículos e documentos curriculares estaduais e também a Reforma do Ensino Médio.

Iris Oliveira alertou ainda para a ideia de um “comum curricular” que daria conta das diversidades, que daria conta do que os construtores desse modelos de currículo chamam de pluralidade cultural, na tentativa de passar uma ideia de que contemplaria todos os povos do Brasil

“Essa ideia de ‘comum’, ela foi cunhada a partir de um pensamento, a partir de uma matriz epistemológica  e nesse sentido ela já exclui determinados povos. Quando a gente exclui outras formas de ser, a gente também está excluindo outros saberes”, afirma.

Pra a professora Iris estes documentos curriculares são concebidos numa dissociação do contexto em que estamos inseridos e vivendo no Brasil, principalmente num contexto de uma necropolítica.

“Todo o contexto que vivemos é invisibilizado pela BNCC, que ainda responsabiliza a escola pelo desempenho “insatisfatório” dos estudantes. Quando a gente responsabiliza a escola pública a gente também está responsabilizando os professores. Essa responsabilização traz no seu bojo uma desqualificação da educação pública.  Como não refletir nossa realidade se no Brasil hoje temos uma política pública de morte, direcionada a uma segmento da população que é a maioria nos bancos escolares das escolas públicas,  que são os estudantes pobres e pretos” aponta.

Para a professora quando a BNCC  pensa  o cenário do final do ensino fundamental e do início do ensino médio retirando questões sociais, questões raciais questões de gênero, joga justamente  sobrecarga para professores

“É importante a gente olhar para esse Estado brasileiro como o Estado que está ao mesmo tempo dizendo, no seu documento oficial, que a escola é uma espaço para incentivar a construção de uma projeto de vida, é também o mesmo Estado que está promovendo as políticas de morte”, destaca.

A professora Iris Oliveira ressalta  que o que  temos neste documentos curriculares é uma intenção de hierarquização de saberes, a ideia de formação de um tipo ideal de estudante: aquele que precisa ser empreendedor de si mesmo (essa é a ideia do ‘Projeto de Vida’), para ser uma bom cidadão. O bom cidadão é compreendido nestes documentos como aquele que vai entrar no mercado de trabalho para ser mão de obra barata.

“O meu chamado para a transgressão da BNCC é para a gente pensar uma pouco como a gente pode trair esses documentos, como a gente pode esperançar e coletivamente e construir outras formas de lidar com os conhecimentos na escola”, convoca a professora.